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Cultura caipira

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(Redirecionado de Caipiras)
"Caipira picando fumo", de Almeida Júnior, de 1893

A cultura caipira se refere às características tradicionais do estado de São Paulo, sendo uma expressão cultural profundamente enraizada na história e na formação social do estado, que influenciou outras localidades inicialmente pela atividade sertanista paulista, consideradas parte integrante de uma região cultural denominada Paulistânia, um conceito cultural e geográfico que começou a ganhar destaque a partir do século XX e abrange São Paulo, Mato Grosso do Sul e partes de Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso.[1][2][3][4][5][6][7] Ela é vista por historiadores como a continuação da cultura dos bandeirantes,[8] estes agora deslocados de suas antigas tarefas, relacionadas a explorações auríferas, expansionistas e escravagistas.[9]

Boiadeiros caipiras de São Paulo, em uma comitiva de Tanabi a Barretos.
Mapa da Paulistânia.

Originários do interior de São Paulo, os caipiras são um dos tipos sertanejos brasileiros presentes no Sudoeste e Centro-Oeste do país.[10][11] Também são historicamente associados à colonização de regiões serranas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, onde seus descendentes são denominados birivas.[12]

Devido à sua riqueza e representação de uma das manifestações mais autênticas e significativas da identidade paulista, a cultura caipira é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do estado de São Paulo.[13] Os caipiras e sua cultura são considerados pelos estudiosos como uma evolução da antiga sociedade paulista e da cultura bandeirante.[14][15]

No passado, os caipiras eram facilmente identificados devido a um fenótipo físico que os assemelhava ao dos indígenas e pelas suas vestimentas, que podiam incluir calças de lona de algodão, um grande chapéu e, mesmo em dias de calor, um tradicional poncho.[16] Entre seus principais formadores étnicos também estão os judeus que emigraram de Espanha e Portugal durante a Inquisição,[17][18] constituindo um povo com significativa presença em São Paulo entre os séculos XVI e XVII.[19][20]

Durante o período colonial, seu principal mecanismo de comunicação era a língua geral paulista, vindo a ser difundida por outras regiões através das bandeiras;[21] atualmente eles possuem um dialeto próprio de base portuguesa, no qual preservaram-se alguns elementos da língua geral paulista e da língua galaico-portuguesa.[22]

Etimologia

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Inicialmente, caipira era uma denominação utilizada pelos povo guaianá do Médio Tietê como uma forma de denominar os bandeirantes,[23][24] antigos desbravadores que partiam de São Paulo com o objetivo de explorar a sertania em busca de metais preciosos.[25] O termo surgiu no durante a existência da Capitania de São Vicente, que posteriormente foi reorganizada com a denominação de São Paulo e Minas de Ouro, e finalmente em 1720, como São Paulo.

A primeira definição do nome "caipira" foi feita no século XIX, por Baptista Caetano d'Almeida, tendo defendido que o termo provém da língua tupi: cai (queimada) + pira (pele); traduzindo-se como "pele queimada," fazendo referência à aparência física, possivelmente dos bandeirantes.[26][27] No século XX, surgiram várias explicações etimológicas para a origem do termo, alguns defendendo que pode provir do tupi ka'apir ou kaa-pira, que significa "cortador de mato";[28] ka'a pora, "habitante do mato", a partir da junção de caa (mato) e pora (gente);[29] kopira, que significa "roçado" ou "roçador";[30] caí-pyra, "envergonhado";[31] outros do guarani caapiára, que significa "agricultor".[32]

Possíveis sinonímias

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O significado original do termo caipira, corresponde, em Minas Gerais, ao capiau, um termo de origem guarani que também significa "cortador de mato".[33] Caipora, procedendo do tupi caa'pora, "o que há no mato".[34] Na região Nordeste do Brasil, corresponde ao matuto,[nota 1] que procede de "mato".[36] O termo caboclo (do tupi: kari'boka, "procedente do branco"),[37] que designa estritamente os filhos da união entre brancos e indígenas, passou a ser associado ao caipira no século XIX. Caburé, que procede do tupi kabu'ré, designando os filhos da união entre negros e indígenas.[38] No Rio Grande do Sul, os descendentes dos caipiras que colonizaram a Serra Gaúcha, receberam a denominação que possui variações entre "biriva", "biriba" ou "beriba", cujas procedem do tupi mbi'ribi, traduzindo-se como "pequeno", "pouco".[39] "Guasca", que procede do termo quíchua kuask'a, significando laço, corda.[40] "Bruaqueiro", uma referência à bruaca, uma bolsa de couro cru usada por bandeirantes e tropeiros no transporte de cargas sobre o lombo de burros.[41] Capuaba e capuava, termos de origem tupi.[42] Araruama, procede do topônimo Araruama.[43] Botocudo, uma referência aos índios botocudos. Mano-juca, uma forma carinhosa para "irmão José".[44] Mandi, que procede do tupi mãdi'i,[45] "roceiro".[46] Caiçara, que procede do tupi kai'sara,[47] ou do tupi-guarani caa-içara, sendo caa "mato" e içara "armadilha".[48]

Pejorativos e estereótipos

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Foram associados ao caipira, estereótipos e pejorativos como Jeca, a forma reduzida do personagem Jeca Tatu.,[49] Babaquara, que procede da junção dos termos tupis mbae'bé (nada), kwa'á (saber) e ara (a gente), significando "aquele que nada sabe", "tolo" e "apalermado".[50][51] Canguçu, que procede do tupi akãngu'su, significando "cabeça grande".[52] Casaca, que procede do francês casaque[53] associado a "descompostura".[54] Tabaréu, que provém do tupi taba'ré, "o que vive na aldeia",[55] também associado a figura de uma pessoa tola, tímida.[56] Camisão, aumentativo de "camisa".[57] Capa-bode, procedendo da junção de "capa" e "bode".[58] Groteiro, aquele que provém de "grota".[59] Catrumano, que procede de quadrumano (alteração prosódica de "quadrúmano",[60] aquele que tem "quatro mãos"),[61] Macaqueiro, procedendo de "macaco".[62] Mocorongo, talvez proceda do quinguana (dialeto do suaíle) kolongo, um pequeno macaco.

Usos impróprios

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No Brasil, o termo "caipira" costuma ser utilizado com bastante frequência de forma pejorativa, etnocêntrica e esteorotipada[63] para populações interioranas (das zonas rurais e pequenas cidades), como no livro Urupês de Monteiro Lobato, onde o caipira é retratado como uma "velha praga", "parasita caboclo", "parasita da terra", "baldio", "seminômade", "inadaptável à civilização", "urumbeba",[nota 2] etc. Como nas tradicionais festas juninas, onde pessoas se trajam com roupas saloias, tecidos remendados, maquiagem exagerada, fitas e pintinhas no rosto, características geralmente estereotipadas como sendo a representação do caipira.[64][65] O termo também costuma ser associado erroneamente como uma forma de tradução para termos culturais distintos da cultura caipira e pouco difundidos no Brasil, como redneck e hillbilly (com a semelhança de todos serem relacionados a pessoas do campo, de hábitos simples e pouco refinados).[66][67]

Em Portugal, para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, um "caipira" se resume a uma pessoa que mora no campo ou na roça, também conhecido como matuto, roceiro ou jeca (em alusão a Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato).[68] Possui também um sentido depreciativo, indicando pessoas que têm modos considerados rústicos, simples, grosseiros ou incultos. Em Portugal, aqueles que apoiavam ou eram membros do Partido Constitucionalista durante a Guerra Civil Portuguesa, travada de 1828 até 1834 entre liberais constitucionalistas e absolutistas sobre a sucessão real, eram chamados de "burros" até 1832; posteriormente, também em tom depreciativo, passaram a denominá-los "caipiras". Porém, um habitante das zonas rurais, em Portugal, costuma ser designado como saloio, podendo essa conotação eventualmente ser pejorativa.[69][70]

História

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O início da sociedade caipira deu-se no século XVI, em consequência ao movimento conhecido como bandeirismo, realizado por homens com o objetivo de desbravar territórios ainda não desbravados da América do Sul. De acordo com o livro Os parceiros do Rio Bonito, de Antônio Candido, foi a partir da expansão geográfica dos paulistas, entre os séculos XVI e XVIII que as características iniciais dos colonizadores se desdobraram numa variedade subcultural do tronco português denominada cultura caipira.

As primeiras formas da sociedade caipira eram sustentadas por uma economia de subsistência aliadas às técnicas para equilibrar a relação do grupo com o meio ambiente, característica esta obtida das heranças culturais que receberam os caipiras; a vida social do caipira conservou suas origens pela fusão entre a herança portuguesa e os primitivos habitantes da terra, representada pela atividade seminômade e aventureira que marcou a habitação, a dieta e o caráter do paulista.[71] Assim, o bandeirismo, por seu deslocamento incessante, agricultura itinerante marcaram as atividades de coleta, caça e pesca do descendente caipira a partir de século XVIII.[72]  

As sucessivas adaptações por que passou o desbravador durante o bandeirismo, fez com que a vida do caipira primitivo assimilasse e conservasse suas origens nômades e aventureiras, promovendo uma fusão entre a cultura ibérica e a cultura indígena. A característica de economia semi-nômade marcou a habitação, a culinária e o caráter do caipira paulista. Do século XVI ao século XVIII, esse estilo de vida predominantemente marcado pela segregação e rusticidades da vida rural representava uma economia fechada, voltada para a auto-suficiência respaldada pelos agrupamentos de vizinhança, na qual não fazia sentido o acúmulo de capital. A partir do século XIX, a cultura caipira vivenciou a ascensão e a consolidação do modelo capitalista de economia, impulsionado pela revolução industrial, que concorreu para grandes transformações no modo de vida tanto do homem urbano como rural, manifestando os sintomas da crise social e cultural pelo qual ainda vive a sociedade, deste modo, o caipira desse segundo momento histórico passou por grandes mudanças. Primeiro, como pequeno agricultor, não conseguia mais prover por inteiro as próprias necessidades alimentares, pondo fim ao regime de autossuficiência, devendo recorrer aos estabelecimentos comerciais da vila, incorporando assim, o sistema comercial das cidades e a necessidade de acumulação de capital para aquisição de bens materiais e novas tecnologias que facilitavam o trabalho no campo. A cultura caipira foi ainda marcada por uma vida lúdico-religiosa bastante intensa e importante dentro de sua organização social. As festas e as idas às igrejas nos finais de semana favoreciam o convívio social sinalizado por hábitos alimentares e religiosos, dialeto e músicas bastante peculiares a esse grupo.

Origem e dispersão

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A origem do povo paulista colonial remonta às primeiras décadas do século XVI, quando náufragos, degredados e desertores portugueses, como João Ramalho e o misterioso Bacharel de Cananeia, se fixaram no litoral paulista e Planalto de Piratininga, adotando costumes dos indígenas e se miscigenando com mulheres ameríndias.[73][74]

Nos séculos XVI a XVIII, após a fundação de São Vicente em 1532, vieram para o que é hoje o estado de São Paulo mais colonizadores, predominantemente portugueses, com uma presença substancial de espanhóis e cristãos-novos e até, em menor medida, de pessoas de outras partes da Europa. Como a imigração era quase toda masculina, esses colonos se misturavam com mulheres nascidas em São Paulo, descendentes dos primeiros colonizadores portugueses e mulheres indígenas.[75][76]

Como resultado do bandeirantismo e da demanda por novas terras para a agricultura, no final do século XVI e primeiras décadas do século XVII, iniciou-se uma expansão do povoamento do Planalto Paulista para os vales dos rios Paraíba e Tietê, onde surgiriam povoações, que virariam vilas, como Itu, Taubaté, Guaratinguetá e Sorocaba. Um pouco mais tarde, o povoamento paulista foi em direção ao norte, onde surgiriam povoações como Jundiaí e Atibaia, e ao sul, onde se formariam Paranaguá e Curitiba.[77][78]

No último quartel do século XVII, o foco das expedições dos bandeirantes passou a ser Minas Gerais, a procura de ouro e pedras preciosas, e muitos paulistas se fixaram ali, sobretudo com a descoberta de jazidas de ouro nessa época, para lá expandindo a cultura caipira.[79] No centro de Minas Gerais, onde estavam os principais núcleos mineradores, a forte imigração de portugueses e de pessoas de outras partes da colônia formou uma cultura própria, típica do estado mineiro, com traços caipiras. No sul do estado e na região do Triângulo, inicialmente povoada por colonos vindos do atual estado de São Paulo e tendo, no final do século XVIII e início do XIX, acolhido muitos migrantes vindos das decadentes vilas mineradoras, como Ouro Preto, Mariana e Sabará, formou uma cultura com traços caipiras e mineiros.[80][81]

Na Paulistânia, o africano escravizado começou a ser utilizado com grande frequência no início do século XVIII, com a mineração de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Na Capitania de São Paulo, iniciou-se uma transição para o trabalho africano escravizado no início do século XVIII, concluída em meados dos setecentos, com o ciclo do açúcar no interior.[82][83][84]

Em Goiás, com a descoberta de jazidas de ouro pelos bandeirantes, na década de 1720, a maioria dos colonos que ali se fixaram eram oriundos de São Paulo, daí a cultura caipira ainda estar presente em certas regiões do estado. Em Mato Grosso, onde as bandeiras também encontraram ouro, na mesma época que em Goiás, também houve a migração de paulistas para lá, expandindo a área cultural caipira.[85]

Imigração

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No quadrilátero formado pelos municípios de Campinas, Piracicaba, Botucatu e Sorocaba, no médio rio Tietê, o caipira sofreu muitas transformações, influenciado que foi pela maciça imigração italiana e de outras nacionalidades para as fazendas de café do interior de São Paulo. Mas o caipira, por sua vez, aculturou o imigrante, tanto nessa região quanto na região de Santo Amaro, na capital, onde os alemães imigrados logo depois da Independência acabaram conhecidos como "os caipiras alemães de Santo Amaro".

Na região norte paulista (de Campinas a Igarapava) povoada inicialmente por migrantes vindos de Minas Gerais no início do século XIX, a presença de vários imigrantes europeus foi grande, dando outra característica à região, mas não apagando a cultura caipira.[86][87] Já o oeste e noroeste do estado de São Paulo, de colonização recente (primeira metade do século XX), surgiu com a presença de imigrantes (italianos, espanhóis, japoneses, alemães, etc.) e migrantes internos (mineiros, nordestinos, etc.), também formando uma cultura bem diferente das regiões mais antigas de São Paulo.[88]

Regiões de cultura caipira no estado de São Paulo

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Importantes núcleos humanos de persistência dessa cultura no estado de São Paulo são o Alto Paraíba, particularmente Cunha e São Luiz do Paraitinga; a Baixa Mogiana, sobretudo a Bragantina, particularmente Bragança Paulista, Pinhalzinho, Socorro, Pedra Bela, Amparo, Serra Negra, Lindoia e Águas de Lindoia; a região de Piracicaba, Capivari, Rafard e Rio das Pedras e a região de Sorocaba, Itu, Porto Feliz e Tietê.[89][90]

No livro Capitão Furtado, viola caipira ou sertaneja? há a seguinte citação sobre as origens caipiras:

(...) Há, contudo, inúmeros traços de semelhança física e cultural entre caboclos concentrados em boa parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil (Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Goiás), tendo-se, no atual século, generalizado para estes a uma designação tipicamente paulista: ‘caipiras’. Caipira, para muitos filólogos, é expressão de etimologia desconhecida. Silveira Bueno, todavia, atribui o vocábulo à contração das palavras tupis caa (mato) e pir (que corta), no sentido completo de cortador de mato.[91][nota 3]


Sociedade e cultura

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Uma família de caipiras brancos em Penápolis, em São Paulo, na década de 1930.

O aspecto festivo constitui um dos pontos importantes da vida cultural caipira após o mutirão, oferecido pelo beneficiário com alimentos e festa para encerrar o trabalho. Não há remuneração direta ficando o beneficiário com obrigação moral de ajudar quando convocado. A cooperação vicinal era o limite da ajuda.

A cultura caipira se formou com o tempo como um modo de organização cultural e social, ligado a agrupamentos rurais na Paulistânia, especialmente no interior de São Paulo e áreas de influência paulista, e é marcada por um certo grau de autonomia econômica, forte ligação com a terra e uma sociabilidade baseada na família, vizinhança e na cooperação cotidiana. Para Antonio Candido, a cultura caipira sustentou-se em "mínimos vitais e sociais", ou seja, soluções econômicas e comunitárias suficientes para a garantia da subsistência do coletivo e preservar a sua coesão, assim formando bairros rurais com uma certa autonomia.[92]

Para Darcy Ribeiro, tal configuração se deu como uma das áreas culturais do Brasil surgidas da adaptação dos povos interioranos às condições econômicas e ambientais que lhes eram impostas, formando uma variante da cultura rústica brasileira caracterizada pelo sedentarismo, por uma economia familiar e pela baixa dependência do mercado de fora da comunidade.[93]

Habitações

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As habitações podem ou não estarem próximas umas das outras em distâncias variáveis  formando pequenos povoados conhecidos como arraial cuja porção territorial está vinculada a este agrupamento formando uma certa unidade diferente das outras.

As acomodações primitivas de 1713 eram representadas por um rancho, também chamado de abrigo feito de palha sobre paredes de pau-a-pique e posteriormente casas baixas construídas de ripas amarradas com tranças de cipó e barreadas.

A casa do caipira do século XX, segundo Antônio Candido, representa uma habitação rústica, descrita pelo autor como um núcleo de um pequeno sistema de moradia. As excreções e a higiene pessoal eram realizadas fora da moradia requerendo um sistema de bica d'àgua para banhos e lavagem das roupas. O milho e o café eram armazenados em paiol externo, somente o arroz e o feijão eram guardados dentro das casas. Em anexo às moradias, havia o fogão de lenha e o forno de barro. Ainda, havia apêndices tais como chiqueiros, chocadeiras, moenda manual, pilão de pé, hortas e árvores frutíferas. As roupas eram feita com fios de algodão tecidas  por tecelãs. O camisolão até os joelhos era a vestimenta tanto para meninos como para meninas. As mulheres vestiam-se com camisas e saias para mulheres e os homens com ceroulas e camisas. Costumavam andar descalços ou com alpargatas feitas em casa e passavam o tempo a cachimbar e a balançar nas redes.

Os utensílios domésticos eram feitos em casa no início e mais tarde eram encontrados no comércio das vilas, tais como pote de barro, colher de pau, etc. A Iluminação era proporcionada pelo candeeiro de barro ou lampião queimando azeite de mamona ou banha de porco.

Hábitos alimentares

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"Cozinha na Roça" (data desconhecida), de Oscar Pereira da Silva.

A culinária caipira está muito ligada com o caráter autossuficiente da economia rural tradicional e sua base alimentar se sustentava no aproveitamento dos recursos locais e na combinação de influências indígenas e portuguesas e adaptações regionais.

O milho se sobressaía tanto na alimentação cotidiana quanto nas comidas festivas, acompanhado pelo feijão, mandioca, arroz, carnes de criação local e produtos processados de modo artesanal. Antonio Candido destaca que a alimentação fazia parte de um sistema mais amplo de organização econômico-cultural, no qual técnicas produtivas e hábitos alimentares estavam bastante interligados ao equilíbrio social do grupo.[94]

Dentre as atividades domésticas tradicionais, estavam a fabricação de sabão, o preparo de alimentos artesanalmente e o beneficiamento de produtos agrários, práticas essas que reforçavam a autossuficiência dos bairros rurais.[95]

Darcy Ribeiro argumenta que a gradual inclusão dessas populações ao mercado colaborou para que diversas atividades artesanais e formas tradicionais de abastecimento doméstico enfraquecessem, alterando profundamente aspectos da culinária e do modo de vida caipira.[96]

A alimentação básica do caipira primitivo era representada pelas plantas indígenas: feijão, mandioca e milho. O modo de preparo destes alimentos foi influenciado pelo modo português de cozimento, exceto para a mandioca cuja extração da farinha vinha de técnicas indígenas. O acompanhamento, chamado de mistura, era composto por carne de vaca, porco e abóbora. Mais tarde a mandioca foi substituída pelo arroz. O feijão era fervido com sal e banha de porco, acrescido por vezes de carne de porco. O milho era o principal cereal da dieta dos indígenas e dos caipiras. Desse alimento era fabricada a farinha para o fubá e beiju, pamonha, mingua, bolo e curau. Com o cereal seco produziam pipoca, quirera, canjica e broas.

Os caipiras aprenderam a apreciar a pimenta, mas essa não se sobressaia em relação ao sal e a gordura. Já o toucinho imperava absoluto. O sal levou os agrupamentos a terem contato com os centros de população favorecendo a socialização tão prejudicada nos agrupamentos mais primitivos.Via de regra o leite, o trigo e a carne de vaca eram raros na dieta do caipira.

A partir da cana de açúcar os caipiras fabricavam a rapadura e a garapa utilizados  como adoçante e a aguardente como estimulante. O café passou a fazer parte da dieta do caipira a partir do século XIX.

A jabuticaba era a fruta preferida ao lado do maracujá, goiaba, mamão pitanga e banana e outras. A atividade caipira primitivo era por excelência a caça para obtenção de carne, habito e técnica herdados dos índios que conheciam os animais.

O plano de subsistência seguia uma ordem. Pela manhã era comum a ingestão de café simples ou pó de café misturado a garapa. Em seguida, o caipira partia para a roça levando, em uma panelinha envolta em um pano e colher amarrada sobre a tampa, a comida para o almoço e a merenda, além  de uma garrafa de café. O almoço acontecia entre 8 e 9 horas da manhã e a merenda ao meio dia. O jantar era quente e servido em casa por volta das 17 ou 18 horas. Sua composição não variava em relação ao almoço. A noite, antes de deitar costumavam ingerir café ou garapa, mas não como regra.

Os alimentos eram produzidos para a subsistência familiar. O triângulo alimentar do caipira a partir do século XIX era composto sempre pelo arroz, feijão e farinha. O caldo do feijão era ralo e com pouco sal. A mistura nem sempre acompanhava esse triângulo ou quando aparecia era normalmente em quantidade insignificante. As misturas prediletas, porém raras, eram o pão de trigo e carne de vaca. As misturas mais frequentes eram ovos, carnes de porco e galinha, esta última com parcimônia salvo as parturiente verduras tais como couve e alface. O macarrão e a polenta também foram assimiladas pela culinária caipira por influência do imigrante europeu

A aguardente era consumida de forma ampla e generalidade, inclusive por mulheres enquanto que o leite era raro entre os mais pobres por questões econômicas.

Para o preparo dos alimentos, o caipira costumava abusar da banha de porco e das frituras.  Seu modo de comer era sempre curvado sobre o prato, alimentando-se rápido e com pouca mastigação. As hipóteses para esses achados recaem sobre a presença de inúmeros problemas dentários, a presença de alimentos moles e a necessidade de não perder tempo para que o trabalho pudesse render.

Com o fim do regime de autossuficiência econômica no século XIX, o pequeno agricultor não consegue prover por inteiro as próprias necessidades alimentares, devendo recorrer aos estabelecimentos de benefício da vila,incorporando o sistema comercial das cidades.

Algumas restrições alimentares faziam parte da cultura caipira. Uma delas refere-se a dieta do pós-parto, período no qual as parturientes ficavam quarenta dias alimentando-se  exclusivamente de caldo de galinha. Na quaresma, por exemplo, não costumavam ingerir carne de porco ou usar sua gordura no preparo de alimentos, substituindo-a por óleo de amendoim.

O caipira, via de regra, não costumava oferecer alimentos, salvo em circunstâncias especiais tais como em festas e hospedagem. Se alguma visita chegasse na hora das refeições, era de bom tom oferecer o alimento mas nenhum aceito sem a recusa prévia por parte do visitante para não demonstrar cobiça ao alimento alheio.

Trabalho e estrutura social

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Em os parceiros do Rio Bonito, Antonio Cândido faz referência à estrutura da sociedade caipira como sendo representada por um agrupamento de algumas ou muitas famílias com algum tipo de vínculo que se estabelece ora pela localidade, ora pela conveniência, ora pelas práticas de auxilio mutuo e ora pelas atividades lúdico e religiosas. Nesses agrupamentos o sentimento de localidade não depende apenas da posição geográfica mas também do intercâmbio entre as famílias cujo elemento de caracterização era o trabalho coletivo de obrigação bilateral. Era comum juntarem-se muitas pessoas para o trabalho de ambos os sexos o que chamavam de mutirão, do indígena muchiron, para as atividades da lavoura e da indústria domestica (tecer fios de algodão). Na sociedade caipira primitiva os alimentos eram produzidos para o próprio consumo e raramente iam ao mercado, pois quase não havia comércio.

O ritmo de vida era determinado pelo dia para atividades de esforço e repouso. Costumavam acordar às 5 horas da manhã e trabalhar em torno de 12 hora no verão e 10 horas no inverno. A semana era ditada pelo ciclo da lua, assim, nos finais de semana costumavam frequentar festa e igreja e ir ao povoado para socialização. O ano agrícola era a unidade de tempo que começava em agosto com a festa de São Roque no dia 16 e terminava em julho com a festa de São João no dia 24.

Tipos de trabalho e trocas:

  • retribuição em trabalho
  • retribuição em espécie
  • troca de serviço
  • trabalho coletivo
  • mutirão

Meios de vida

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"Caipira picando fumo" (1893), de Almeida Júnior.

Tradicionalmente, os caipiras organizaram seu modo e meio de vida ao redor da agricultura de subsistência, da pequena pecuária e do aproveitamento dos recursos que a natureza lhes dá. A produção agrícola era voltada primariamente para o consumo da própria comunidade, sendo comum a produção de um excedente limitado para troca ou venda ocasional. Em um meio com a presença de sitiantes, posseiros, agregados e parceiros, havia o predomínio de uma economia de baixo grau de especialização e reduzida integração comercial.[97]

A organização econômica estava bastante associada ao bairro rural, que ultrapassava a proximidade geográfica e constituía também uma rede de ajuda mútua. Em tais comunidades, relações de parentesco, vizinhança e reciprocidade eram cruciais na produção agrícola, transportes, construção e resolução de problemas do dia-a-dia.[98]

Uma prática característica do sistema mencionado era o mutirão, forma coletiva de trabalho na qual familiares e vizinhos reuniam esforços para a execução de tarefas agrícolas ou obras comunitárias. Embora seja frequentemente associado à solidariedade tradicional, Antonio Candido observou que, ao longo do século XX, essas formas passaram gradualmente a coexistir com relações mais monetizadas de troca de serviços.[99]

A expansão da agricultura comercial, da pecuária extensiva e da economia de mercado alterou profundamente esse padrão de vida, pois o cercamento de propriedades, a redução de áreas para caça e pesca e o avanço de latifúndios enfraqueceram as formas tradicionais de sobrevivência e reduziram paulatinamente a autonomia econômica das comunidades rurais caipiras. Com isso, muitos indivíduos desse povo migraram para as cidades.[100]

Religiosidade

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A religiosidade caipira foi desenvolvida sobretudo no campo do catolicismo popular, assumindo características marcadas pela proximidade entre vida religiosa e vida comunitária. A religião era um fator organizador do calendário social dos bairros rurais e fator integrante de gerações em celebrações coletivas.

Capelas e igrejinhas locais, rezas, promessas, novenas e devoções aos santos padroeiros eram importantes espaços de encontro social e reafirmação do vínculo interfamiliar. As festas religiosas muitas vezes ultrapassavam a dimensão espiritual e funcionavam também como oportunidades de circulação de pessoas, trocas materiais e fortalecimento da identidade da comunidade.[101]

Ribeiro observa que as populações caipiras conservaram, por muito tempo, práticas religiosas tradicionais, mesmo com o avanço das transformações econômicas e urbanas, embora tais práticas tenham sido progressivamente transformadas pela integração ao mercado e expansão dos centros urbanos.[96]

De acordo com o livro “Vivências caipiras: pluralidade cultural e diferentes temporalidades na terra paulista” de autoria de Maria Alice Strubal e publicado no ano de 2005,

A cultura da sociabilidade do caipira é também marcada por intensa religiosidade herdada tanto dos jesuítas como das manifestações indígenas e africanas. Dessa herança construiu-se um sincretismo que incorpora desde benzeduras, assombrações, lobisomens, sacis, danças e manifestações das culturas negra e indígena até as práticas do catolicismo oficial. Existem diversos estudos sobre esses elementos sobrenaturais, assim como as descrições de festas do Divino e de procissões riquíssimas, especialmente na Semana Santa, realizadas principalmente a partir do século XIX (SETUBAL, 2005, p. 108).

A autora cita como exemplo os relatos dos depoimentos coletados por Monteiro Lobato, especificamente no que se refere à figura do Saci, em sua obra intitulada Saci- Pererê, que descreve o personagem como um menino de uma perna só e muito travesso que roubava milhos, embaraçava crina de cavalos, comia piruá de pipocas, dentre outros. Setubal (2005, p. 108) explica que “esses são apenas alguns exemplos de como o homem do campo, diante dos mistérios do desconhecido, de seu relativo isolamento e da intensa relação com a natureza, foi elaborando mitos e crendices explicativas do mundo ao seu redor.”

Neste sentido, muitas figuras lendárias se fazem presentes até a atualidade no imaginário das pessoas habitantes do interior e, especialmente das que se inserem na zona rural, indicando assim que outras histórias continuam circulando, pois nestas regiões, “as pessoas têm mais tempo, tudo é mais escuro, e a imaginação pode “criar asas”” (SETUBAL, 2005).

Festividades

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As festividades exerceram papel crucial na sociabilidade caipira e, além das festas religiosas, incluíam ocasiões de convivência coletiva ligadas ao ciclo agrícola, relações familiares e aos momentos de trabalho comunitário.

Antonio Candido enfatizou que o bairro rural não se limitava apenas a uma mera unidade econômica, mas também um polo cultural, encarregado de preservar costumes locais e manter vivas as práticas coletivas. Em tais momentos, a comida, a música, a dança e a interação social manifestavam-se como partes indissociáveis de uma mesma tradição cultural.[102]

Brandão notou que a valorização da cultura caipira como um objeto de estudo permitiu que práticas antes consideradas apenas manifestações rurais dispersas pudessem ser reconhecidas como componentes de uma tradição cultural própria, incluindo cantos, danças e formas específicas de expressão popular.[103]

"O violeiro" (1899), de Almeida Júnior.

A música caipira é uma das manifestações mais reconhecidas da sua cultura e tradição, tendo se desenvolvido associada tanto ao dia-a-dia rural quanto às épocas festivas e religiosas, sendo historicamente tocada nas casas, encontros comunitários e celebrações locais.

Dentre as tradições musicais, sobressaem-se práticas associadas à viola e expressões populares que mesclavam canto, improvisação e passos de dança. Para Brandão, uma parcela dessas apresentações passou a ser encarada posteriormente como um pilar da identidade cultural do estado de São Paulo, saindo da esfera do mero folclore para conquistar um prestígio cultural mais extenso.[103]

Antonio Candido associou essas práticas musicais ao próprio modo de funcionar da sociabilidade caipira, compreendendo-as como formas de integração da comunidade e transmissão de costumes e tradições.[104]

Contos ou causos do caipira

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Também são típicos do caipira os «causos», termo que quer dizer «historietas contadas através de pai para filho durante séculos», que o caipira gosta de contar.

Um exemplo:

Havia um grupo de dez sacis que vivia numa fazenda com um fazendeiro muito mau. Tinha saci de todo tipo: malandro, bagunceiro, reinador, briguento, como qualquer moleque. Um dia, o fazendeiro desapareceu e os sacis também desapareceram e ninguém sabia pra onde haviam ido. Com o tempo, começaram a aparecer em estradas, para tropeiros e cargueiros, que davam pinga para os sacis. Com o tempo, foram acabando as tropas, foram aparecendo os carros e eles não foram mais aparecendo nas estradas. Mas continuaram aparecendo para os pescadores, assombrando fazendas, destruindo criação pequena, que sumia das fazendas, tiravam ovo da galinha que estava chocando (...)


Mapa dos dialetos do português brasileiro.

A cultura caipira é marcada por um dialeto próprio e marcado por uma singularidade rústica, compondo assim, uma característica marcante do modo de ser do caipira (SETUBAL, 2005).  O dialeto caipira é o conjunto de variedades do português brasileiro tradicionalmente associada às populações rurais da Paulistânia. Sua formação está relacionada ao relativo isolamento geográfico das comunidades no interior e a formação histórica da cultura caipira, preservando traços linguísticos que se consolidaram ao longo de séculos de ocupação do território. O dialeto carrega influências do português antigo e da língua geral paulista, falada pelos bandeirantes.[105][106][107]

Embora frequentemente associado apenas ao interior paulista, essa forma dialetal do português possui influência em regiões mais amplas na Paulistânia, abrangendo o sul de Minas Gerais, partes do Triângulo Mineiro, o norte do Paraná, sul de Goiás e Mato Grosso do Sul, acompanhando processos históricos de colonização e migração.[108]

Suas características mais descritas pelos estudos linguísticos são certos fonemas, diferenças no vocabulário e construções próprias da gramática. Um dos traços mais marcantes é a pronúncia retroflexa do /r/ em posição de coda silábica (mais conhecida como "R caipira"), sem mencionar as características lexicais e sintáticas próprias.[106] [107]

Estudos posteriores da Linguística passaram a interpretar o dialeto não como uma forma "errada" e "rude" de falar português, mas como uma variedade regional própria e legítima do idioma falado no Brasil, com sua regularidade interna e relacionada a processos históricos específicos de formação.[103]

Ao longo do século XX, a urbanização, expansão dos meios de comunicação e migrações contribuíram para uma certa redução de diversas características do dialeto caipira nas cidades, embora diversos elementos ainda persistam na fala contemporânea de amplas regiões do interior do Brasil e continuem associados à identidade cultural desse povo.[109]

A singularidade rústica do dialeto pode ser justificada pela “influência da língua tupi onde não existem os sons para as letras d, f, l, v, z e no guarani fonemas para as letras b, d, f, l, z. Dado a essas ausências fonéticas, o povo caipira que se formou no interior paulista, sul de Minas, Goiás e algumas áreas litorâneas, carrega suas pronúncias em “erres” e troca o “L” pelo “r” e “lh” pelo “i” até hoje (muié, foia, passar mar, barde, dia de sor, etc.)” (SETUBAL, 2005, p. 103).

Neste sentido, não apenas a pronúncia, mas também as  “palavras são também carregadas de outros significados vindos de outros contextos, sendo, portanto, multimoduladas” (SETUBAL, p. 103, 2005). Outra característica ainda a ser apontada, está no fato de o linguajar caipira possuir o seu tom próprio, que em geral consiste em um frasear lento, sem variações e nem musicalidade. Diante destas características, “a linguagem foi qualificada como o elemento definidor e caracterizador do ser caipira” (SETUBAL, 2005).

Representação na cultura

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O caipira foi retratado com precisão e maestria por Almeida Júnior nas suas obras-primas Caipira picando fumo e O violeiro.

Literatura

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O tipo humano do caipira e sua cultura tiveram sua origem no contato dos colonizadores brancos europeus com os ameríndios (ou "gentios da terra") e com os negros africanos escravizados. Os negros de São Paulo eram, na sua grande maioria, provenientes de Angola e Moçambique, ao contrário dos negros da Bahia, na sua maioria provenientes da costa da Guiné.

Cornélio Pires dividiu o caipira em quatro categorias, segundo sua etnia, cada uma delas com suas peculiaridades:

Coitado do meu patrício! Apesar dos governos os outros caipiras se vão endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene... Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa... Ele nada sabe. Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral!

Cornélio Pires
  • Caipira negro: descendente de escravos, na época de Cornélio Pires era chamado de "caipira preto". Foi imortalizado pelas figuras folclóricas da "mãe-preta" e do "preto-velho", que é homenageado por Tião Carreiro e Pardinho nas músicas "Preto inocente" e "Preto Velho". É, em geral, pobre. Sofre, até hoje, as consequências da escravidão; Cornélio Pires diz dele: "É batuqueiro, sambador, e "bate" dez léguas a pé para cantar um desafio num fandango ou "chacuaiá" o corpo num baile da roça".
  • Caipira branco: descendente dos bandeirantes, uma nobreza decaída, orgulha-se de seu sobrenome bandeirante, como Pires, Camargo, Paes Leme, Prado e Siqueira. É católico, e se miscigenou com o colono italiano. Pobre, mas é, ainda, proprietário de pequenos lotes de terras rurais: os chamados "sítios". Cornélio Pires, em seu livro "Conversas ao Pé do Fogo", no qual descreveu a vida do caipira, conta que o caipira branco, descendente dos "primeiros povoadores, fidalgos ou nobres decaídos", se orgulhava do seu sobrenome:

Se o caipira branco diz: 'Eu sou da família Amaral, Arruda, Campos, Pires, Ferraz, Almeida, Vaz, Barros, Lopes de Souza, Botelho, Toledo', ou outra, dizem os caboclos: 'Eu sou da raça, de tal gente'!

[110] Cornélio Pires
  • Caipira mulato, descendente de africanos com europeus. Raramente são proprietários. Cornélio Pires os tem como patriotas e altivos. Diz dele Cornélio Pires: "o mais vigoroso, altivo, o mais independente e o mais patriota dos brasileiros". Excessivamente cortês, galanteador para com as senhoras, jamais se humilha diante do patrão. Apreciador de sambas e bailes, não se mistura com o 'caboclo preto'".

Cornélio Pires informa, em "Conversas ao Pé do Fogo", que o caipira cafuzo e o caipira "caboré" são raros no estado de São Paulo.

Cornélio Pires

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O maior estudioso do caipira foi Cornélio Pires, que compreendeu, valorizou e divulgou a cultura caipira nos centros urbanos do Brasil. Cornélio Pires em sua obra Samba e Cateretês, registrou inúmeras letras de música caipiras, que ouviu em suas viagens, e que, sem esta obra, teriam caído no esquecimento. Cornélio Pires registrou também a influência da imigração italiana entrando em contato com o caipira e os termos caipiras mais usados em seu Dicionário do Caipira publicado na obra Conversas ao pé do Fogo.

Cornélio produziu cerca de 500 discos em 78 rpm, sendo o primeiro que lançou, em discos de 78 rpm a música caipira.

Dentre as obras caipiras de Cornélio Pires, destaca como as mais relevantes Musa Caipira (1910), Quem conta um conto (1916), Conversas ao pé do fogo (1921), As estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho o queima campo (1924) e Mixórdia (1927). A linguagem empregada nas obras caracteriza-se pelo dialeto caipira e, para melhor entendimento do leitor, no final de cada livro, Cornélio criou um glossário para explicar alguns termos que permeavam o modo de falar nesse dialeto.

Caipira lobatiano

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No ano de 1914, Monteiro Lobato lançou, no jornal O Estado de S. Paulo, um artigo intitulado Velha Praga, que trouxe para a literatura brasileira a figura do caipira como o arquétipo de um anti-herói. Na tentativa de desmistificar a figura romântica do caboclo como um "Jesus nacional", Lobato rompeu com essa visão do “caipira” como um forte e sadio bandeirante e o retratou como sinônimo da preguiça, de onde se originou a forma estereotipada do caipira. Lobato criou Jeca Tatu, um estereótipo do caipira que carregava em sua formação biológica o gene da incapacidade. Entretanto, em 1918, Lobato publicou Jeca Tatu: a ressurreição, que embora trouxesse para o panorama literário os mesmos preconceitos retratados na publicação anterior, o escritor apresentou Jeca como uma vítima da estrutura agrária, jogado às traças devido aos privilégios que eram apenas oferecidos aos latifundiários, que, na época, eram a classe social que compunha a elite do Brasil. Desta forma, Jeca Tatu sofria de preguiça, não por esta ser resultante da lei do menor esforço, mas porque tinha ancilostomose. Por estar doente, somente a ciência poderia curá-lo. O tratamento médico seria a salvação do caipira e ao mesmo tempo, seu fim, pois sem o traço da preguiça, Jeca Tatu não seria o mesmo, portanto, para Monteiro Lobato, a salvação do povo caipira seria a sua extinção.[111]

Casamento caipira em festa junina

O cineasta Amácio Mazzaropi criou uma personagem, nos anos de 1950, que fez muito sucesso no cinema brasileiro: o Jeca, inspirado no caipira branco (Mazzaropi tinha ascendência italiana), com base nos estereótipos do caipira caboclo criados por Monteiro Lobato em 1914.[112]

O cartunista Maurício de Sousa pautou-se também nos moldes de Monteiro Lobato para criar um personagem caipira para as histórias da Turma da Mônica, que é o Chico Bento: um menino caipira que representa o confronto da cultura caipira com a urbanização do Brasil. Notável é o fato de as falas nas historietas em quadrinhos do "Chico Bento" serem escritas no dialeto caipira, em vez do português culto.

Modas de viola

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Os ritmos e representações considerados como caipiras, as tradicionais modas de viola, podem ser encontradas nas regiões brasileiras como: o cururu, o catira (ou cateretê), folias de reis, danças de São Gonçalo, congadas, calangos e a moda de viola (desta vez um ritmo), entre outros (MENEZES, 2008).

A moda de viola é um ritmo de origem rural, comumente encontrada nas áreas do interior das regiões do Sudeste, Centro-Oeste e algumas áreas do Paraná. Coincidentemente com a área que Antônio Cândido (1998) chamou de “lençol caipira”.

A moda de viola também era conhecida nos seus primórdios como romance. A  jornalista Rosa Nepomuceno (1998 apud Menezes, 2008, p. 15) também destaca a variabilidade dos temas deste tipo de música:

Os versos, geralmente longos, falam de tudo o quanto há ao redor do caipira, desde o rio que lhe banha os pés a infortúnios de todo tipo, a morte do boi preferido, o combate de rivais pelo amor da cabocla bonita. E ainda separações, desencantos, fatos engraçados, impressões de viagens.

As modas trazem, muitas vezes, narrações de fatos ou eventos verídicos, inclusive com o local do ocorrido, reforçando assim a impressão de realidade. Essas localidades coincidem com o “lençol caipira”, identificados por Antônio Cândido (1998). A maneira como a moda de viola é executada também contribui para esse realismo. O moda tem ares de declamação, é uma poesia cantada e privilegia a sua compreensão, como se o violeiro fosse um contador de histórias.

A música de origem caipira foi adquirindo contornos próprios, seja nos temas, na execução e nos instrumentos musicais. De exaltação das belezas do campo, passou a falar de histórias de amor e corações partidos. Enquanto a música caipira é executada de maneira mais lenta, com os versos quase falados, com melodias que se repetem e sempre levada em duo de vozes terçadas, com a utilização da viola, a música sertaneja abandonou a viola e introduziu novos instrumentos musicais (MENEZES).

Tanto a música raiz quanto a música sertaneja, sofre ainda uma certa depreciação nas camadas mais eruditas da sociedade. Teria a música raiz perdido seu valor e seu espaço em um mundo tão tecnológico, com ritmos musicais tão psicodélicos?

O antropólogo Tiago de Oliveira entende que a música desempenha um importante papel na cultura:

O fato de permear tantos momentos nas vidas das pessoas, de organizar calendários festivos e religiosos, de inserir-se nas manifestações tradicionais, representando, simultaneamente, um produto de altíssimo valor comercial, quando veiculada pelas mídias e globalizando o mundo no nível sonoro, faz da música um assunto complexo e rico de possibilidades para a investigação e o saber antropológicos. (PINTO, 2001, apud, MENEZES, 2004, p. 29).

A música raiz faz parte da vida cotidiana das pessoas e serve como elemento de integração social, além de compor os calendários festivos e religiosos e inserir-se nas manifestações tradicionais. Ela contribui para a percepção das pessoas sobre um passado em comum, visto que todos os brasileiros tiveram um tataravô, um bisavô ou avô que viveu em períodos da história brasileira em que a agricultura familiar era forte, necessária e havia a vivência da cultura caipira em sua essência. E a presença dela se mostra forte e exuberante nos concursos culturais, nas feiras agropecuárias, nos eventos rurais relacionados ao campo, nas festas beneficentes, conforme nossa pesquisa de campo.

Ver também

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Notas

  1. Outros sinônimos são: araruama, babaquara, babeco, baiano, baiquara, beira-corgo, beiradeiro, biriba, biriva, botocudo, brocoió, bruaqueiro, caapora, caboclo, caburé, cafumango, caiçara, cambembe, camisão, canguaí, canguçu, capa-bode, capicongo, capuava, capurreiro, cariazal, casaca, casacudo, casca-grossa, catatuá, catimbó, catrumano, chapadeiro, curau, curumba, groteiro, guasca, jeca, macaqueiro, mambira, mandi, mandim, mandioqueiro, mano-juca, maratimba, mateiro, mixanga, mixuango, muxuango, mocorongo, moqueta, mucufo, pé-duro, pé-no-chão, pioca, piraguara, piraquara, queijeiro, restingueiro, roceiro, saquarema, sertanejo, sitiano, tabaréu, tapiocano, urumbeba e urumbeva.[35]
  2. Termo usado no estado de São Paulo, para designar uma pessoa crédula e ingênua, fácil de ser enganada.
  3. O que hoje em dia se chama também de “roceiro”.

Referências

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Bibliografia

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Ligações externas

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Cultura caipira
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